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Estamos prontos para encarar as escolas como centros de promoção de saúde e não apenas de educação?

4 de fevereiro de 2026 4 min de leitura

"Em Portugal, cerca de 1 em cada 3 crianças entre 6 e 8 anos apresenta excesso de peso e aproximadamente 1 em cada 10 sofre de obesidade infantil. Estes números são alarmantes e mostram que não podemos continuar a ver a escola apenas como um espaço de ensino académico. As escolas são, e devem ser, centros estratégicos para formar hábitos saudáveis."

As crianças passam grande parte do dia na escola, tornando este ambiente crítico para moldar hábitos alimentares ao longo da vida e para reduzir desigualdades em saúde e nutrição. No entanto, em muitos ambientes escolares, e sobretudo a nível global, os alimentos disponíveis, servidos, vendidos ou promovidos incluem produtos processados, ricos em gorduras saturadas, ácidos gordos trans, açúcares e sal.

Recentemente a Organização Mundial da Saúde lançou uma nova diretriz "Policies and interventions to create healthy school food environments" . Pela primeira vez, a nível global, a recomendação é adotar uma abordagem abrangente que garanta que todos os alimentos e bebidas servidos, vendidos ou promovidos dentro e ao redor da escola sejam nutritivos e alinhados com as metas de saúde pública.

A nova diretriz inclui recomendações que, quando bem implementadas, podem ajudar a transformar este cenário:

Escola como ambiente formador de hábitos
As crianças passam grande parte do tempo na escola, tornando este espaço fundamental para estabelecer rotinas alimentares saudáveis e reduzir desigualdades nutricionais.

Normas nutricionais claras e consistentes
Definir padrões sólidos de alimentação é essencial. A diretriz propõe aumentar a disponibilidade de opções nutritivas e colocar limites claros para açúcar, sal e gorduras não saudáveis.

Estratégias de “nudging” para escolhas mais saudáveis
Intervenções comportamentais tais como como ajustar a apresentação, posição ou preço de alimentos saudáveis são altamente recomendadas para incentivar escolhas mais nutritivas.

Integração com políticas mais amplas
As escolas não atuam isoladamente. As ações devem fazer parte de estratégias maiores de promoção de dietas saudáveis, restrição ao marketing de alimentos pouco interessantes do ponto de vista nutricional e políticas fiscais que incentivem escolhas mais saudáveis.

Monitorização e fiscalização
Políticas isoladas não são suficientes. A OMS reforça a importância de mecanismos de avaliação e monitorização para garantir que as diretrizes sejam efetivamente aplicadas e mantidas ao longo do tempo para garantir resultados.

Em Portugal

Nas escolas públicas portuguesas são servidas mais de 100 mil refeições diariamente. Para muitas crianças, o almoço na escola é a única refeição completa do dia, incluindo sopa, peixe, fruta e a única acompanhada por água, em vez de sumos ou refrigerantes. Para muitas delas, é a única refeição feita em companhia, aprendendo o significado de estar à mesa e de conviver durante a refeição.

As refeições escolares em Portugal são alvo de rigor técnico e científico, com regras que evoluem há mais de 100 anos. Hoje, o país é uma referência internacional, não apenas pela fundamentação técnica e quantidades servidas, mas também pela disponibilidade de pratos vegetarianos e da tradição mediterrânica. Mas para que esta regulamentação de qualidade funcione na prática, é essencial ter uma comunidade escolar bem formada e participativa, e entidades públicas com capacidade de fiscalização e autonomia.

Apesar dos avanços, ainda faltam recomendações nacionais para crianças na primeira infância. Para estas idades, não existem diretrizes muito claras sobre padrões nutricionais, consistência alimentar e integração educativa, áreas em que a intervenção precoce poderia ter um impacto significativo no desenvolvimento do paladar, prevenção da obesidade e formação de hábitos alimentares saudáveis desde a primeira idade. Incluir políticas específicas para estas faixas etárias é uma oportunidade para tornar o sistema mais abrangente, garantindo que a promoção da saúde comece antes mesmo da entrada na escolaridade formal.

Educação alimentar e hábitos para a vida

Não se trata apenas de oferecer frutas na cantina ou de dar aulas sobre alimentação saudável. A escola é um ambiente educativo e nutricionalmente estratégico, capaz de formar hábitos que perduram toda a vida. Cada refeição é uma oportunidade para ensinar a comer com consciência, prazer e equilíbrio, combinando nutrição, socialização e educação alimentar prática.

A pergunta que fica é simples: estamos prontos para encarar as escolas como centros de promoção de saúde e não apenas de educação formal? Se formos capazes de unir políticas públicas sólidas, rigor técnico e envolvimento da comunidade escolar, o impacto será muito maior do que qualquer currículo tradicional poderia alcançar. Porque educação e nutrição caminham juntas, e a refeição escolar é, muitas vezes, a primeira oportunidade real para ensinar a comer bem, com consciência, prazer e equilíbrio.

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Laura Paniagua Ribeiro

Nutricionista, Gestora de Projetos e Eatmapper Founder, com atuação nas áreas da alimentação coletiva, restauração, food service e inovação alimentar.

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