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Novas diretrizes alimentares da USDA: quando a ciência se confunde com política

9 de janeiro de 2026 3 min de leitura

"As novas diretrizes alimentares da USDA trazem alguns avanços, mas falham na clareza, na sustentabilidade e na coerência científica, colocando em risco a confiança do público."

Novas recomendações alimentares da USDA: ciência, política e confiança pública

Provavelmente já viram “por aí” as novas diretrizes alimentares lançadas pela USDA. O que talvez não tenham reparado é a entrada do website da agência e a frase inicial do documento: "To Make America healthy again".

Infelizmente, quando diretrizes científicas são percebidas como instrumentos políticos, a confiança do público é a primeira a sofrer.

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Avanços reconhecíveis, mas insuficientes

É certo que as novas diretrizes trazem alguns avanços, incluindo a atenção à saúde intestinal, que finalmente ganha visibilidade, e a menção à redução de alimentos processados com aditivos, adoçantes não nutritivos e açúcar, mantendo também recomendações já existentes sobre consumo de frutas e vegetais.

No entanto, o documento também deixa lacunas importantes. Embora forneça orientações úteis, não consegue destacar elementos centrais para uma alimentação saudável e sustentável, colocando a alimentação e o planeta lado a lado.

No gráfico, as leguminosas, por exemplo, continuam quase ausentes. Comprovadamente nutritivas, acessíveis e ambientalmente amigas, deveriam ocupar um papel central nas diretrizes. A sustentabilidade é tratada de forma periférica, ignorando a ligação direta entre padrões alimentares e impacto ambiental. A esta altura, separar saúde e planeta já não é defensável.

Proteína, carne e prioridades distorcidas

Outras recomendações preocupam-me igualmente. O ênfase dado ao consumo de carne, sobretudo carne vermelha, não é suportado pela evidência científica e ignora completamente a dimensão de sustentabilidade.

Dados populacionais mostram que a maioria dos adultos já consome proteína suficiente, e para a maioria das pessoas a deficiência de proteína não é um problema de saúde pública, enquanto a qualidade geral da dieta continua a ser uma preocupação maior.

Gorduras saturadas e a omissão do termo “ultraprocessados”

A promoção de gorduras saturadas para consumo regular, mesmo mantendo a recomendação máxima de 10% das calorias diárias, cria inconsistências claras.

Além disso, o documento evita deliberadamente o termo “alimentos ultraprocessados”, odiado pela indústria, optando por expressões vagas como “alimentos processados, embalados, preparados, prontos a comer”.

Comunicação visual pouco clara

O gráfico voltou a ser uma pirâmide, desta vez invertida, mas a distribuição dos alimentos não é clara nem facilmente percetível. Quando uma diretriz desta dimensão precisa ser imediatamente compreendida pelo público, a clareza é essencial.

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Álcool: recomendações vagas

Quanto ao álcool, as diretrizes limitam-se a indicar “consumo com moderação”, sem especificar quantidades ou diferenças de metabolização entre homens e mulheres.

Ciência sob pressão política

Elaborar recomendações alimentares para toda a população é um desafio complexo. É necessário condensar evidência científica diversa em orientações claras, compreensíveis e adaptáveis.

Mas o problema não se limita ao conteúdo: a politização é evidente. A USDA é uma agência governamental, mas interesses económicos e políticos parecem influenciar as recomendações, colocando a proteção da agricultura e da economia acima da saúde pública. Quando a confiança do público no aconselhamento nutricional já é tão limitada, clareza e coerência deixam de ser opcionais.

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Laura Paniagua Ribeiro

Nutricionista, Gestora de Projetos e Eatmapper Founder, com atuação nas áreas da alimentação coletiva, restauração, food service e inovação alimentar.

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